AS PINTURAS RECENTES DE ROGÉRIO

As pinturas recentes de Rogério Pinto aprofundam sua pesquisa quanto ao estatuto da imagem em nossos dias. As imagens que  utiliza em suas pinturas não são, todavia, as que vemos com mais freqüência na pintura contemporânea, a saber, as de circuitos internos de vigilância ou as hiper realistas captadas, muitas vezes, da internet. Em sua produção a escolha das imagens que vão para a tela  se vale de métodos pouco usuais como  utilização de catálogos impressos, campanhas publicitárias, cartazes, almanaques de design. Essas fontes tem algo  comum entre si: elas possuem um “ar antiquado”, vintage (um termo em voga,inclusive), que parece resistir a rapidez e excesso do que vemos em redes sociais, celulares, aplicativos. Em alguns trabalhos junta-se a isto  uma divisão da tela onde o que está pintado em um lado não guarda uma relação direta com o outro ou possuem elementos gráficos, blocos de cores, junções de elementos díspares em uma mesma tela.

 

O estranhamento que eles nos causam está, em parte, elucidado acima, mas chama atenção uma espécie de alegria, um ar de galhofa, como a dizer que devemos nos levar menos a sério. Não há cinismo algum nisto; apenas uma combinação de estranhamento e alegria que o artista parece ter intuído que faltava ao seu trabalho e, sem nenhuma pretensão de sua parte, à  uma certa pintura contemporânea.

 

Marcelo Salles

(crítico e curador independente e gestor da Casa Contemporânea-SP- escrito em 2014)

 

 

AS PINTURAS DE ROGÉRIO

 

Você encontra com a mesma pessoa em um curso, convive com outras no trabalho, vai ao bar e restaurante onde cumprimenta e conversa com outras algumas vezes. São seus amigos ou conhecidos; com alguns você se identifica e pensa: como será o cotidiano dessa pessoa? O que ela faz, gosta, odeia, bebe, come, lê...

 

No caso de um artista, esse pensamento, esse imaginar o outro, adquire um pouco mais de mistério. Assim como passa-se a conhecer melhor alguém quando privamos de sua intimidade, quando somos convidados à ir a sua casa por exemplo, o atelier diz muito a respeito dos trabalhos de um artista e, claro, dele mesmo; ainda que na arte contemporânea possa haver uma certa incompreensão tanto ao trabalho no atelier como em relação à pintura.

 

Os trabalhos que se encaixam na terminologia "arte contemporanea” trazem consigo pechas, entre outras, de difíceis, incompreensíveis ou vazios de um "sentido” que, no imaginário da maioria das pessoas, deveria existir.

 

Ironicamente esses mesmos "defeitos” são colocados junto a pintura mas ela não é considerada como contemporânea (por mais que a tinta apresente-se fresca).

 

Nestas recentes pinturas de Rogério Pinto o acúmulo de informações mostra-se como um todo fragmentado. Composto por massas de cores, figuras , signos, referências à cultura popular, ícones retrôs, coisas inacabadas, pentimentos. Neste difícil amálgama, tão caro a contemporaneidade, nossos olhos encontram muitas vezes um repouso matisseano: aquela inexplicável calma que parece suspender, por breves instantes, o transcorrer da vida plasmada em massas de cores e linhas.

 

Porém há nelas um dinamismo explícito, fruto não só de uma fatura expressiva mas também da atitude natural de buscar sentidos ou significados em figuras ou signos reconhecíveis para percebermos que eles ali surgem desprovidos de qualquer função cognitiva.

Esse olhar que se alterna entre a pausa e o circular pela tela cria o desejável jogo entre pintura e espectador; uma pintura feita como colagem, porém composta única e exclusivamente por tinta e que não se realiza somente na retina.

 

Apesar de tudo isso, talvez a maior empatia que elas podem criar advem de um sentimento transbordante da vontade de pintar; esta necessidade ancestral, inexplicável, incontida que ainda é capaz de emocionar, fazer pensar e que dificilmente pode ser expresso por palavras ou encerrado em rótulos.

 

Desta forma, ao recriar a atmosfera do atelier de Rogério, tentamos ir um pouco além de suas pinturas; mostrar sua poética, seu processo de produção, os trabalhos convivendo entre si e alimentando a produção futura, como uma metáfora do viver: aprender, experimentar, conviver com os erros e os acertos, tentar melhorar, se desiludir, se apaixonar, começar outra vez. Assim como se começa uma tela.

 

Seja bem vindo.

 

Texto escrito por Marcelo Salles por ocasião da exposição individual de Rogério na Casa Contemporânea, abril-junho/2010.

 

   

A subjetividade do abandono na pintura de Rogério Pinto

A pintura de Rogério Pinto quer resignificar a imagem, refazê-la, reconstruí-la, deformá-la, tirá-la da fôrma, dar nova forma, poetizá-la. E a princípio esta sempre foi a consciência daqueles que se aplicaram a arte pictórica. No entanto, para isso, Rogério faz uso de imagens oriundas da fotografia; as seleciona, recorta, escolhe e compõe uma espécie de colagem no computador, depois as imprimi na tela. Este primeiro gesto mecânico antecede a ação física da pintura, mas não é menos importante.


A memória da primeira imagem, para não se perder, luta contra o esquecimento. Rogério quer anular o processo inicial, e do embate (raspar, sobrepor camadas de tinta, repintar e apagar figuras) entre uma imagem eleita e a composição pictórica, nasce a sua poética: dar um novo corpo para um registro visual encarcerado e esquecido no tempo.

Rogério une símbolos perdidos entre si e os harmoniza como se tivessem vivido juntos desde sempre; uma girafa com o número 5, uma garotinha sentada com uma pantufa de coelhinho, um cabide suspenso e um sapato são companhias para um rosto que não se vê e o número 2.

Rogério faz pintura por excelência; a cor e o espaço bidimensional são o seu material bruto, mas não dá para chamá-lo de formalista, isso seria reduzir o potencial simbólico de seu trabalho.
Deste modo, a sua pintura é, em seu processo, impregnada de uma subjetividade do abandono, daquilo que está desamparado, deixado de lado, largado. São imagens que ninguém mais quer que Rogério escolhe para o seu trabalho, explico: Rogério não escolhe imagens populares de famosos ou de apelo midiático, opta pelas esquecidas. Processo, aliás, que apesar de resultar numa pintura, está desde seu início tomado pela idéia do registro fotográfico e de seu rastro, sua memória no tempo.

 

Pinturas como o Homem Dividido (acima), e mesmo uma série de retratos anônimos são representações do abandono, do esquecimento, daquilo ou daquele que já não interessa e que Rogério dá novo sentido, reelaborando, desmembrando e recompondo as coisas, os seres e os signos que evoca. Com gestos que estão entre ternura e vigor, apropriação e criação, figuração e abstração, impermanência e eternidade, urgência e contemplação.

Parece que a pintura de Rogério quer nos dizer que sem o encontro com o passado o presente se esvazia e, por isso, desmembra os corpos, como se emergisse daquela imagem primeira o homem contemporâneo; cindido e sem unidade por si. Ressalta e valoriza as partes: um pé, um chapéu, uma cabeça, um sapato, uma parte de um animal, um número; para reorganizá-los. E no ato de composição/compaixão Rogério os harmoniza com o presente, revelando as partes que compõe o todo e vice-versa, dando-lhes vida nova, enchendo-lhes de sentido e de uma esperança velada por sua aparente desilusão.

 

 E exatamente por anular em seu processo criativo o que, de certa maneira já estava anulado pelo tempo e desinteresse alheio, é que as imagens fotográficas inicialmente escolhidas por Rogério - figuras de abandono – renascem em sua pintura como a ave mitológica Fênix, só que já não são as mesmas.

 

marcelo maluf 6-4-2008